COMUNIDADES DE PRÁTICA REFLEXIVA DA PARENTALIDADE
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COMUNIDADES DE PRÁTICA REFLEXIVA DA PARENTALIDADE

COMUNIDADES DE PRÁTICA REFLEXIVA DA PARENTALIDADE

CONSTITUINDO ESCOLAS DE PAIS

 

INTRODUÇÃO E JUSTIFICATIVA

“Filho é um ser que nos foi emprestado para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem. Isso mesmo! Ser pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter, porque é expor-se a todo o tipo de dor, principalmente o da incerteza de agir corretamente e do medo de perder algo tão amado. Perder? Como? Não é nosso, recordam-se? Foi apenas um empréstimo.”

                                                                                               José Saramago

 

O Desafio de Educar os Filhos

Educar os filhos é uma das tarefas mais instigantes, trabalhosas, exigentes e estressantes do planeta. É também uma das mais importantes e gratificantes, pois através dela formamos os seres humanos que serão protagonistas do futuro, influenciando-lhes o coração, a consciência, a experiência de sentido e ligação, o repertório de habilidades para a vida e os mais profundos sentimentos que essa geração tem sobre si mesma e seu possível lugar num mundo em transformação acelerada. Entretanto, quando nos tornamos pais, fazemos isso praticamente sem qualquer preparo ou treinamento; muitas vezes com pouca ou nenhuma orientação e apoio, e tudo isso num mundo em que várias estruturas vêm se desintegrando. Com velocidade exponencial, formas e organismos sociais que nos sustentaram através de décadas vêm se desfazendo ou se transformando, incluindo comunidades tradicionais, entre as quais, a própria família.

Até meados do século XX, pais e mães não tinham dúvidas sobre seus papéis e não se perguntavam sobre suas funções. O pai era o provedor material, impunha castigos, administrava as recompensas. A mãe gestava, dava à luz, amamentava, cuidava da saúde e das rotinas escolares. O pai era respeitado a partir do temor e da distância emocional, enquanto a mãe era reverenciada por sua capacidade de sacrifício em favor dos filhos. O pai era referência de conduta no mundo do trabalho, a mãe da gestão doméstica incluindo a mediação nas relações e conflitos. Os papéis, mais que arquétipos (modelos ricos em significados essenciais, porém moldáveis em seus modos de expressão), haviam se tornado estereótipos (papéis que se repetem de modo automático e prevalecem sobretudo pela forma). Poderíamos enumerar, aos olhos de hoje, várias zonas não atendidas, lacunas de comunicação, especialmente no campo emocional, carência de respostas para perguntas decisivas que não podiam sequer ser formuladas. No entanto, pais, mães e filhos se relacionavam dentro de uma ordem com códigos e hierarquias assimilados sem questionamentos. Era simplesmente a ordem natural das coisas.  Até que vieram os anos sessenta.

Os anos sessenta trouxeram profundas mudanças sociais. Em princípio, o surgimento da pílula e dos métodos contraceptivos permitiu à mulher a iniciativa e recuperação da posse de seu corpo (seu útero), seu desejo e definitivamente, de sua sexualidade, propiciando-lhe um papel mais ativo nas relações entre os sexos — o que se somou ‘a sua incorporação ao mundo do trabalho e outros espaços sociais e políticos.

A revolução sexual, os movimentos de liberação feminina, o movimento hippie, os levantes de maio de 68 na França e mais tarde em outras partes do mundo são alguns exemplos de impulsos de transformação que marcaram época. O modelo familiar tradicional começaria a experimentar uma metamorfose cuja profundidade e repercussões apenas seriam vistas em toda sua dimensão mais adiante. A confrontação dos velhos padrões de educação e convivência familiar segundo os quais os filhos deveriam ser repetidores dos modelos paternos e cumpridores das expectativas fez com que interrogações se instalassem de maneira um tanto hamletiana no panorama das novas gerações.

Afastar-se dos modelos dos próprios pais floresceu como uma necessidade imperiosa para um número crescente de jovens casais. E como costuma acontecer, todo modelo fixo, enrijecido e estereotipado acaba levando à irrupção abrupta de seu oposto. Assim, da rigidez, do autoritarismo, do puritanismo, e da imobilidade de uma forma de criação antiga surgiriam uma maternidade e paternidade que fariam da permissividade, da ausência de restrições e referências e da celebração da “sabedoria da infância” suas marcas no tecido social. O trágico é que, apesar das melhores intenções, o pouco discernimento e uma certa imaturidade levaram muitos pais a confundirem cumplicidade com amor, condescendência afetiva com presença emocional e independência e autonomia pessoal com prescindência vincular quase que transferindo aos filhos a responsabilidade de se educar sozinhos.

Em seu livro In Place of the Self, em que aborda a questão da drogadicção como um desafio de nossa época, Ron Dunselmann também fala destas transformações sociais como um ponto crucial, porém de um outro ponto de vista. Se descrevemos até agora a fisionomia exterior dos fatos, ele nos dá a perspectiva mais interior e oculta sob a face exteriormente manifesta. Diz ele:

“Fica claro que desde 1960 têm havido profundas mudanças na vida social e cultural. Até este tempo, os padrões de pensamentos, sentimentos e desejos eram determinados em uma maior extensão pelo gênero, família, classe social, profissão, religião ou pela comunidade. Entretanto, no curso dos anos 60 (1960) as coisas mudaram drasticamente. Os últimos anos da década de 60 do século XX foram uma época de muitas revoluções em nossa cultura; de revoltas estudantis, primeiro em Paris, e mais tarde também em outras partes do mundo. “Límagination au pouvoir”( poder para imaginação) – as coisas tinham de ser diferentes. Nós queríamos pôr as coisas em movimento. Queríamos determinar por nós mesmos aonde iríamos, com base em nossas próprias idéias. Tentativas eram feitas para expandir a consciência, e para muitas pessoas, as drogas ( particularmente o LSD e a maconha) pareciam perfeitas para isso. Tradições eram desafiadas, e muitas regras aprendidas eram quebradas ou invertidas. Alguns exemplos óbvios disso incluem: o questionamento dos padrões e papéis nos relacionamentos, questionamento da autoridade na família, na escola, na universidade, no trabalho; o movimento para emancipação feminina e em favor das minorias oprimidas; mudanças no comportamento e moralidade sexual, com os relacionamentos se tornando cada vez mais abertos, livres e mais diversos, o declínio da ascendência da Igreja, e assim por diante.

A esse respeito, tradições e costumes têm duas características importantes. De um lado, elas impedem a psique de ser livre, e obstruem a atitude inquiridora da realidade. Por outro lado, elas oferecem à alma uma coesão interna pelo fato de possibilitarem que ideias, costumes e motivos se interrelacionem. Em outras palavras, a tradição assegura que ideias e desejos estejam interrelacionados e formem uma certa unidade dentro da personalidade. ( Neste caso você age com base na idéia de que ‘este é o modo como se tem de agir’ ) Quando a força formativa da tradição desaparece, isto não apenas conduz à liberdade, mas também à necessidade de criar um relacionamento interior entre as idéias, sentimentos e desejos, a partir dos próprios recursos. Talvez uma das características das pessoas de hoje seja que muitas vezes o que elas pensam ou sentem não condiz necessariamente com o que elas fazem. Ou o que sentimos conflita com o que fazemos, ou pode ser que escutemos algo como: “Eu penso ou faço uma coisa, mas em meu coração sinto outra.”

Pensar, sentir e querer começam a viver cada qual a sua própria vida, começam a se emancipar, e é como se a cada dia necessitássemos recriar o inter-relacionamento entre estas três forças na alma.

Até os anos 1960, a cultura e as tradições foram responsáveis por criar esta unidade em grande medida. Mas a ruptura com as tradições criou um espaço na alma que, por um lado, nos deu a liberdade de criar o próprio conteúdo, de estabelecer o inter-relacionamento e coesão do pensar, sentir e querer. Por outro lado, surge a questão: será que temos força suficiente para fazer isto a partir de nós mesmos, com recursos do nosso próprio ser?

E este é o ponto em que nos encontramos como humanidade do século XXI. Todas as formas de afirmação de autoridade externa, identificadas com a tradição, devem ceder lugar a uma nova autoridade interna, forjada no exercício e conquista da própria consciência e liberdade.

No contexto específico da convivência familiar muitas das mudanças ocorridas se desdobraram em sérias consequências com impacto social.

A família costumava ser o lugar não apenas do ninho, do abrigo, mas, sobretudo o lugar primeiro da educação, ali onde os seres humanos são iniciados à sua própria humanidade e à humanidade dos seus semelhantes.

Essa passagem da condição animal à condição humana implica em uma atenção cotidiana, uma vigilância e escultura das personalidades, sem a qual a condição animal prevalece, com suas cargas instintivas agressivas e sua ignorância do que chamamos civilização.” (Oliveira, 2003)

Hoje, porém, muitos cientistas sociais, pedagogos, médicos e terapeutas vêm apontando o fenômeno do esvaziamento da responsabilidade parental na criação dos filhos como um traço crescente de nossa sociedade. José Martins Filho, médico pediatra, denominou-o como a “terceirização da criança” (Filho, 2008), e em sua obra homônima tece considerações, a partir de uma perspectiva histórica, sobre o atual cenário das relações entre pais e filhos demonstrando o quanto estes últimos têm estado cada vez mais aos cuidados de outros, que não os próprios pais: babás, oficinas de esportes e outras práticas, psicopedagogos, terapeutas, ou simplesmente ocupados em frente às telas de TVs, I-pads, celulares e outros eletrônicos sem uma adequada supervisão.

Sergio Sinay, um estudioso dos vínculos humanos, se refere a isto como a “Sociedade dos Filhos Órfãos”. Uma sociedade, segundo ele, caracterizada por uma

“cultura da fugacidade, da superficialidade extrema, da banalidade, da vida light e desprovida de sentido, do prazer efêmero e a qualquer preço, das relações vazias, da conexão sem comunicação, da manipulação de consciências e sentimentos, do ocaso da responsabilidade, da confusão entre liberdade e falta de compromisso, do consumo viciador e predador” (Sinay, 2012).

Em sua percepção, o autor assinala que o estilo de vida predominante, os paradigmas éticos reinantes e o modelo hegemônico adotado nas relações humanas (entre sujeito e objeto, e não entre sujeito e sujeito) geraram, em boa parte dos pais e adultos envolvidos na educação de crianças e jovens, “uma inclinação ao medo, à negligência, ao desentendimento e à procura de soluções fáceis no exercício dessa criação e educação”.(idem)

Um equivocado sentido de amor os leva a temer que o exercício das funções parentais em seus aspectos menos fáceis e demagógicos- como o estabelecimento de limites claros- possa ter como consequência o desamor dos filhos. “Há uma nefasta confusão entre paternidade e amizade, e esta desaba sobre os filhos na figura de um amigo ou amiga anacrônicos e disfuncionais, enquanto gera um vazio no tão necessário espaço parental”. (Sinay, 2012)

Os filhos órfãos de pais vivos, como ele os chama, estariam sendo criados pela TV, pelos fabricantes de junk food, pelos produtores de uma tecnologia que os fascina por um lado, mas os incapacita, por outro, para muitas funções da vida cotidiana, através de artefatos que enfraquecem a vontade, eliminam a força de fantasia e o poder da imaginação criativa, acachapando certas capacidades de aprendizado e discernimento, bem como suas habilidades para a comunicação humana real.

As consequências desta “orfandade” são estarrecedoras. Violência infanto-juvenil, obesidade infantil epidêmica, dependência química e outras espécies de vícios e compulsões que aparecem de forma cada vez mais precoce, notáveis índices de depressão e taxas crescentes de suicídio na adolescência, ignorância a respeito do ambiente em que vivem e como foi criado, incultura galopante, desordem nas relações filiais e parentais, etc.

Esta ausência repetida ou persistente de limites e referências dos pais, seu desconhecimento quanto ao devir de uma criança, seu despreparo e angústias dele resultantes, – tudo isto talvez se explique, em parte, pelo contexto conformado pela cultura em que vivemos. Este não é um assunto menor, mas um sintoma da crise de sentido, de transcendência, de espiritualidade e de valores da época– manifestações que corroem como uma doença crônica e progressiva a civilização contemporânea. Por isso mesmo, necessita de um olhar holístico, e uma leitura fenomenológica adequada, que encare a realidade decorrente de um paradigma cultural e social em desacordo com os sinais dos tempos, as exigências de um novo período em que o progresso da humanidade só pode se dar segundo novos princípios, um novo modo de pensar.

Enfim, os problemas são desconcertantes e estão criando um ambiente social em que é cada vez mais difícil para as famílias e instituições de ensino educar crianças e jovens saudáveis com todas as notáveis consequências que tal situação gera para o futuro do país e de toda a humanidade. Manifestações tangíveis e diárias de amor, apoio, energia e interesse por parte de adultos de carne e osso, capazes de suscitar respeito e admiração, estão-se tornando cada vez mais raras na era da tecnologia e da inteligência artificial.

Ora, se de um lado somos sujeitos a grandes forças sociais que moldam nossas vidas e as vidas de nossos filhos, por outro, também temos a capacidade de, como indivíduos, escolher conscientemente como vamos nos relacionar com as circunstâncias e com a era em que vivemos. Todos nós temos o potencial para traçar nossos caminhos, para viver com mais atenção e intencionalidade, e para perceber fidedignamente as profundas necessidades de nossas crianças e as nossas próprias a fim de honrá-las da melhor forma possível. E se, por um lado vivemos tempos tão desafiadores, em contrapartida, possibilidades fantásticas estão se abrindo e coexistem ao lado do caos e das dificuldades.

A experiência tem demonstrado que é preciso converter-nos de meros progenitores (no sentido biológico) em pais na mais verdadeira acepção da palavra- coisa que hoje, mais do que em qualquer outra época, é em si, algo supranatural, ou seja, já não é algo natural, precisando ser aprendido e desenvolvido deliberadamente. Em outras palavras, a maternidade (assim como a paternidade) já não pode alicerçar-se em uma sabedoria instintiva, mas requer o conhecimento do ser humano em seu vir a ser, bem como o exercício contínuo da autoeducação, num esforço interior de aprimoramento a serviço da realização das potencialidades daqueles que nos são confiados como filhos ou educandos. Afinal, ser pai ou mãe não é um hobby ou uma atividade para as horas livres, senão que um empreendimento que implica em tarefas que exigem disponibilidade, consomem energia, requerem uma presença íntegra.

Mas o que significa educar?

De acordo com Rudolf Steiner, toda educação é autoeducação, e nós na qualidade de professores e educadores, em realidade formamos apenas o ambiente em que a criança se educa a si mesma. Devemos propiciar-lhe o ambiente mais favorável possível, para que junto à nós ela se eduque da maneira como deve ser educada por seu destino interior.”

Quem quer que penetre nisto com toda sua alma, experimentará em si mesmo a transformação a que tais verdades podem conduzir, e despertará para a percepção daquilo que brota das profundezas do ser da criança. Pois educar tem pouco ou nada a ver com incutir algo em sua mente. Significa antes, oferecer-lhe, o mais possível, as condições mediante as quais poderá trazer à tona suas potencialidades e predisposições interiores.

Esta atitude se estende até às responsabilidades frente às futuras gerações. Para as gerações vindouras nós somos como o solo, a terra-mãe a partir da qual elas podem se desenvolver. Des-envolver é tratar de remover os véus que encobrem e deixar que o próprio ser se revele, se realize. Devemos dar às crianças o que elas necessitam para a vida, mas não podemos submetê-las à força apenas para conformá-las de acordo com nossa própria imagem ou vontade. Antes, devemos permitir essa liberdade em seu desenvolvimento e respeitá-lo em seus próprios termos. Respeitar a liberdade neste estado germinal de seu ser é uma tarefa muito mais difícil e significativa para o ser humano do que respeitar a liberdade do que já se realizou.

Na realidade, se admitimos esta afirmação como correta, veremos que o que se exige é nada menos que um caminho sacrifical em que, visando nutrir o desenvolvimento do outro, é preciso desenvolver-se a si próprio, empenhando esforços para trazer à tona o que há de mais profundo e verdadeiro em nossa essência humana. O simples fato de nos tornarmos pais deveria ser um estímulo contínuo para a manifestação do que temos em nós de melhor, mais sábio e amoroso, enfim, para sermos as melhores pessoas que pudermos ser.

Lidar com filhos anuncia todo um conjunto novo de solicitações e mudanças em nossas vidas, exigindo que renunciemos a muitas coisas conhecidas e que assumamos outras tantas desconhecidas. Em geral contamos apenas com a bagagem que trazemos de nossa história pessoal, tanto a positiva quanto a negativa, para enfrentar o território desconhecido de ter filhos e educá-los. E, se não estivermos dispostos a revisitar nossas experiências, refletir sobre elas e delas fazer sentido, extraindo suas lições, é bem provável que nos vejamos reagindo em muitas situações a partir de condicionamentos, perpetuando padrões trans-geracionais e confinando nossos filhos nos mesmos erros que outros cometeram antes de nós.

O que com este trabalho pretendemos é examinar e propor como alternativa para lidar com estes desafios contemporâneos, a prática de um caminho de autodesenvolvimento consciente, realizado no contexto de uma comunidade de pais que se une em torno de um propósito único: o de exercer a maternidade/paternidade atenta, consciente e responsável a partir de um olhar e leitura fenomenológicos das situações existenciais do dia a dia na lida com os filhos.

 

O Exercício da Maternidade/Paternidade Atenta

A maternidade/paternidade atenta é um chamado para o despertar de uma nova consciência e intencionalidade para as possibilidades, benefícios e desafios da tarefa de criar os filhos. Uma atenção consciente, desprovida de críticas e julgamentos, mas acurada em seu discernimento, pode levar à compreensão mais profunda de nossos filhos e de nós mesmos. Tanto mais se praticada no seio de uma comunidade em que tanto as necessidades e dores quanto as conquistas e alegrias de ser mãe ou pai podem ser compartilhadas.

Tal prática, como a concebemos, se baseia fundamentalmente em quatro pilares: (1) no conhecimento das leis que regem o desenvolvimento humano; (2) no compromisso com a autoeducação; (3) no aprender a ler e fazer sentido do que acontece em nosso relacionamento com as crianças, e (4) na possibilidade de trocar com outros experiências e saberes, construindo uma rede de apoio mútuo.

Consideramos o trabalho dos educadores uma responsabilidade sagrada. Em geral, espera-se dos pais e educadores que sejam nada menos que protetores, nutridores, confortadores, metres, guias, companheiros, modelos e fontes de amor e aceitação incondicionais. Bem sabemos que não conseguimos corresponder totalmente a isso. Mas se pudermos dedicar-nos a esta responsabilidade como um sacro-ofício, e colocarmos um pouco mais de atenção no processo à medida que ele se desdobra, é muito mais provável que nossas respostas sejam guiadas por uma consciência do que esse momento, ou esse menino ou menina _ nesse estágio de sua vida _ necessita e nos pede, através de seu comportamento.

Neste exercício de atenção, a consciência tem de ser inclusiva. Quer dizer, tem de incluir o reconhecimento de nosso próprio pensar, sentir e querer, abarcando também nossas próprias frustrações, inseguranças e defeitos, nossas questões não resolvidas e limitações, e mesmo nossas facetas mais sombrias e destrutivas, bem como as maneiras pelas quais podemos nos sentir oprimidos ou angustiados. Pois em diversos aspectos somos produtos e, às vezes, em maior ou menor grau, prisioneiros dos fatos e circunstâncias de nossa infância e anos de formação. Já que a infância molda significativamente nossa visão de mundo e de nós mesmos, nossas histórias inevitavelmente moldarão nossa visão de nossas crianças e “do que elas merecem ou não merecem” e de como devem ser tratadas, ensinadas e conduzidas. Mesmo que não o percebamos, trazemos por vezes, profundamente arraigadas, visões e crenças (algumas das quais sequer são conscientes), como se estivéssemos dominados por encantos poderosos. Só quando reconhecemos este fato é que podemos “desencantar-nos”, e aproveitar o que houve de bom, positivo e enriquecedor no modo como fomos educados, e superar os aspectos que podem ter sido destrutivos e limitantes.

Recentes pesquisas científicas dão conta de que o maior fator preditivo de um vínculo seguro e frutífero entre a criança e o adulto cuidador (pai, professor, ou outro adulto de referência) é a maneira que este cuidador tem de fazer sentido de suas experiências passadas, sobretudo às de sua infância. Tal vínculo, por sua vez, apoia o desenvolvimento da resiliência e do bem-estar das crianças. (Siegel, 2014)

Trata-se, portanto, de oferecer aos pais que o queiram, uma oportunidade de trilhar um caminho que faz da tarefa de educar os filhos uma oportunidade de desenvolvimento autoconsciente e colaborativo.

 

Um breve histórico do surgimento das Escolas de Pais

Nos anos 1960, em meio à situação de intensas e significativas mudanças sociais, muitos foram os que as sentiram como ameaça à tradicional família brasileira. Preocupados com as possíveis consequências futuras para a sociedade como um todo, religiosos da Igreja Católica, juntamente com inúmeros casais, na cidade de São Paulo, reuniram-se com a finalidade de estruturar um movimento que pudesse ajudar os pais na tarefa de educar os filhos, e assegurar que os valores tradicionais fossem preservados. Liderados por Madre Ignes de Jesus, Pe. Corbeil, Maria Junqueira Schmidt, casal Alzira e Antonio Lopes, entre tantos outros, esse grupo, em 16 de 0utubro de 1963, no salão nobre do Colégio Madre Alix, na cidade de São Paulo, aprovou o primeiro Estatuto da Sociedade que estabeleceu as normas para o funcionamento da assim chamada Escola de Pais do Brasil.
Nascia a primeira Escola de Pais da qual se tem notícia enquanto instituição formal.

Desde então, inúmeras iniciativas que se autodenominam Escola de Pais ou algo similar vêm surgindo por força da necessidade cada vez mais amplamente reconhecida de se fornecer às famílias orientações e referências para a educação das crianças e jovens.

A título de ilustração deste fato, note-se que na edição do dia 27 de maio de 2019 do Estadão foi publicada uma entrevista com Renata Kacczmarska, porta-voz do Secretariado da ONU para questões de família em que se destaca a importância de programas de educação para a parentalidade responsável. Segundo a especialista, que esteve em São Paulo para apresentar estudos da ONU que definem metas prioritárias e estratégicas para um Desenvolvimento Sustentável, levantamentos permitem concluir que políticas públicas voltadas para a família são um fator contribuinte para o cumprimento de tais metas, uma vez que o que ocorre no seio da família tem repercussão na esfera pública.

 

Muitas das mais recentes Escolas de Pais foram fundadas por profissionais da área da saúde –médicos, psicoterapeutas e/ou pedagogos – outras, por religiosos, e outras ainda por mães que, com o advento das redes sociais, compartilhavam suas experiências e buscavam refletir e trocar ideias com outras pessoas sobre as mesmas. Em seus objetivos, elas em geral convergem com poucas diferenças. Em sua maioria, elas visam:

  1. Desenvolver a parentalidade e os recursos internos que todos os pais têm, fazendo-os se sentirem mais confiantes
  2.  Ajudar os pais a compreenderem melhor os filhos ao longo do seu crescimento ou quando estes têm dificuldades
  3.  Melhorar a comunicação e a relação com os filhos
  4.  Facilitar o desenvolvimento das potencialidades dos filhos
  5.  Enriquecimento pessoal

Entretanto, quando se trata dos modelos de intervenção vemos que podem diferir bastante. Existem modelos presenciais, virtuais e mistos. Há escolas em que os pais apenas ouvem palestras, outras que se baseiam na formação de grupos de estudos, grupos de aconselhamento psicopedagógico, enfim, uma enorme diversidade, cada qual com seu valor.

Mas não quero agora me aprofundar na diversidade de opções hoje existentes nem tampouco em como estão organizadas e sobre que alicerces filosóficos.

Gostaria de apresentar em linhas gerais uma iniciativa particular que nasceu há 11 anos inspirada na Antroposofia.

 

A Escola de Pais da Escola Waldorf Rudolf Steiner

 

A Escola de Pais da EWRS também nasceu da necessidade dos pais que buscavam fazer sentido de suas experiências na lida cotidiana com os filhos. Havia, contudo, um elemento adicional particular pois que seus filhos estudavam numa escola Waldorf, e experimentavam um processo pedagógico muito distinto daquele que eles próprios vivenciaram em sua época. Havia um anseio de compreensão dos fundamentos filosófico-pedagógicos que orientavam a prática dos professores a fim de colaborar com o processo de aprendizagem das crianças. Sabendo-se que o elemento distintivo desta Pedagogia encontra-se essencialmente na concepção que se tem do ser humano e das leis que regem seu vir a ser, estes pais também queriam tomar parte neste conhecimento do desenvolvimento dos filhos e de si próprios.

Assim, a partir das perguntas e angústias existenciais dos pais, conteúdos desta visão antroposófica eram compartilhados na forma de estudos orientados e ilustrados pelas situações do dia a dia com eles relacionados. Os textos lançavam luz e permitiam compreender melhor as situações com que se defrontavam as famílias segundo o estágio de desenvolvimento de cada criança. Porém, compreender e reconhecer algo como verdadeiro, muitas vezes não era suficiente para produzir as mudanças de atitude desejadas.

Foi se desenhando entre os integrantes daquele grupo o senso comum de que todos trazemos em nossa história padrões de comportamento condicionados por crenças e outras influências, nem sempre conscientes, mas cujos efeitos se fazem sentir fortemente, não raro, na direção contrária àquela a partir da qual nos propomos a realizar algo de conformidade com a nova compreensão. Era preciso trabalhar em si e na própria biografia.

Assim, adicionalmente, exercícios de autoeducação passaram a ser propostos e praticados individualmente, com a posterior partilha das observações e reflexões sobre sua evolução. Primeiro em grupos pequenos e na sequência, em plenária abrangendo o todo.

As experiências de partilha em pequenos grupos geravam sentimentos de pertencimento e de aceitação, pela possibilidade de exprimir o que se pensa e sente, de escutar e ser escutado, de compreender e ser compreendido.
Através da interação e da comunicação, as experiências emocionais geradas contribuíam para formação de vínculos que frutificavam em apoio mútuo. Pois os membros do grupo percebem que também outros têm experiências e dificuldades semelhantes e sentem que não são os únicos a ter dificuldades.

Os exercícios desenvolviam uma compreensão empática das crianças, e de si mesmos em cada situação permitindo o reconhecimento de novas alternativas de tratamento pedagógico para cada caso. Muitos pais passaram a relatar atitudes novas que se mostravam mais efetivas no enfrentamento das dificuldades e resolução de conflitos

Muitas questões da própria história pessoal de vida eram evocadas, reconhecidas e ressignificadas. Para isso, certamente é relevante notar que a coordenação do grupo estava a cargo de profissionais da área terapêutica com conhecimento e experiência em diversas linhas e recursos desta natureza, muito embora, o que ali fosse feito não tivesse, a priori, nem o propósito nem o caráter de terapia em grupo. O que ocorria é que mediante exercícios de auto-observação muito do passado era integrado e transformado de maneira curativa, liberando padrões de comportamento condicionado que se perpetuavam há gerações.

Muitos pais se tornaram mais conscientes, mais habilitados a agir de forma coerente com o que compreendiam e se converteram em colaboradores fiéis dos professores, tantas vezes sobrecarregados em sua tarefa escolar

Esta Escola de Pais tem sido a inspiração no meio Waldorf para novas iniciativas em outras comunidades. Mas hoje muitos dos cerca de 90 pais que a frequentam semanalmente (todas as sextas-feiras das 8h00 às 9h45) vêm de outras escolas não Waldorf. Cada época ou ciclo se dá com a duração aproximada de um semestre e explora temas que são determinados pelo próprio interesse dos frequentadores. A cada início de ciclo, uma colheita das questões e desafios mais prementes da perspectiva dos pais presentes gera um temário que é abordado e explorado através de textos, falas, diálogos, exercícios e partilha. Referências bibliográficas para aprofundamento acompanham também o trabalho desenvolvido. A cada novo ano, repete-se a dinâmica:

  • Acolhimento:
  • Boas vindas, breve histórico e propósito da Escola de Pais:
  • Escuta e Colheita das perguntas e angústias dos pais presentes
  • Referências de leituras e estudos que ajudem a iluminar as questões propiciando uma maior compreensão da criança e de si mesmo e um reconhecimento do que se passa
  • Exercícios de observação / atenção / compreensão empática das situações trazidas pelos pais
  • Sugestão de tarefas, exercícios para autoeducação – individualmente, em grupos pequenos, em plenária com acompanhamento de facilitadores.
  • Partilha de experiência

Espero que este relato contribua para a formação de uma imagem, ainda que superficial de uma dentre tantas possibilidades de trabalho com pais. É meu desejo fundamentá-la e explicitá-la mais detalhadamente para que colabore com o surgimento de novas Comunidades de uma Prática Reflexiva da Parentalidade, sempre apoiando o exercício da tarefa de educar os filhos como uma responsabilidade sagrada, através de um caminho de autodesenvolvimento consciente.

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

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One Comment

Um comentarista do WordPress
outubro 28, 2020 8:45 am

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