Se quiser falar ao coração dos homens, há que se contar uma história. Dessas onde não faltem animais, ou deuses e muita fantasia. Porque é assim – suave e docemente que se despertam consciências.
Jean de La Fontaine
O contar histórias é um recurso pedagógico muito rico, envolvente e que nos ativa internamente, proporciona uma aprendizagem viva e dinâmica. Assim como o alimento fortalece e revigora nosso corpo físico, os contos de fadas fortalecem e revigoram a alma de crianças, dos jovens e adultos. Na pedagogia waldorf educamos não só apenas por intermédio de conceitos e informações e sim por imagens, que devem preceder os conceitos. O caráter imagético contém movimentação e forma. E quando juntamos movimento e forma temos infinitas possibilidades. Os contos de fadas são como uma refeição, eles nutrem a alma da criança. É como olhar as nuvens no céu: a cada momento as nuvens ganham uma nova forma, dando oportunidade à criação própria. Cada um pode pintar um quadro interno com suas cores e intensidade de maneira individual e singular. No que se refere ao momento ideal do dia, para se contar histórias, primeiro, devemos criar uma atmosfera de calma e silêncio interno e externo. Pois algo especial está para acontecer. O nosso mundo interno começa se ativar e se torna receptivo para a escuta. Não dá para contar uma história em meio à confusão e barulho.
Também após a contação da história seria muito bom ter um momento de decantação, de pausa, e não engatar em outra atividade imediatamente. E no que se refere ao momento biográfico ideal para se ouvir determinadas histórias, podemos dizer que em toda extensão do currículo Waldorf, desde o maternal até o ensino médio, o contar histórias está presente: em pequenas histórias, contos rítmicos, contos de fadas, lendas e fábulas, biografias, mitos de antigas civilizações, contos indígenas e de origem africana, cada uma dessas histórias cabe em momentos diferentes.
Em cada fase biográfica, a criança e o jovem recebem um tipo de história, pois os conteúdos na pedagogia Waldorf são apresentados de acordo com a faixa etária e maturidade.
Existe um momento em que a criança está mais aberta e precisando de um determinado conteúdo. É importante não adiantarmos processos nem tão pouco deixar de oferecer à criança aquilo que ela precisa naquela fase da sua vida. Vocês já viram quando uma criança pequena acha uma pedrinha no chão? Já notaram que para a criança aquele instante é eterno? A criança tem outra relação com o tempo. Ela está ali inteira observando aquela pedrinha! Observando uma formiga, uma joaninha, que talvez nós adultos nem fossemos nos dar conta da presença daquele bichinho, mas a criança vê! E tem um grande interesse! Ela abre um espaço em sua alma e há uma verdadeira conexão entre ela e a pedrinha, a formiga e a joaninha. Como se ela e a pedrinha fossem uma unidade. Ela vive um momento de pura contemplação e interação.
O tempo da criança é diferente do tempo do adulto. O adulto geralmente faz conclusões apressadas de suas impressões, ou nem as percebe. Ele vive numa outra frequência, numa velocidade de muitas impressões ao seu redor. Ele tem muitas informações e as guarda em caixinhas. A criança ainda não tem esses rótulos prontos, ela não vai fazer decodificações, ela vai deixar o fenômeno de fato se manifestar, e ela se doa para esse momento. E simplesmente vai acompanhar, cuidadosamente, a trajetória da formiguinha. Aquele instante é eterno. Ela necessita revisitar aquela determinada vivência, pois cada vez que a revisita, apreende algo novo! Que de novo a encanta!
Como disse o filósofo Heráclito: “Não mergulhamos no mesmo rio duas vezes”. Assim como um artista ao pintar numa tela o rosto de uma pessoa ou uma paisagem, ele precisa observar de novo e de novo para se deter a detalhes importantes, não pelo perfeccionismo, mas, sim, para ser fidedigno à realidade da percepção. Carregada pelas palavras, a criança percorre cada nuance, cada instância de sua pintura interna! Algo interno está sendo construído, tijolo por tijolo. É importante que a criança se aproprie de suas próprias imagens. Para a criança, a repetição exercita o pintar, o modelar com a alma. Ela ativa o artista interior! “Era uma vez onde foi onde não foi…” Essa é a chave para entrar em outro estado de consciência que é atemporal e que não pode os localizar geograficamente. Em seguida apresenta-se um enigma, uma dificuldade, um desafio a ser superado e por fim, a solução. O nó é desatado: “E foram felizes para sempre”. Esse final feliz é a superação, a resiliência, a criatividade. Sendo assim, os contos de fadas são universais, salutogênicos e um antídoto à desesperança. Nos dão uma bagagem de eternidade, de infinitas possibilidades!
Os contos nos fortalecem animicamente para enfrentarmos as adversidades. Encontrarmos as respostas e vencermos as lutas internas. Quando os contos falam de sapos e lobos, por exemplo, não estão se referindo ao sapo do lago, nem ao lobo, como o felino da floresta, que só vemos no zoológico. Mas, sim, podemos observar as características do sapo, por exemplo: poder habitar a água e a terra, sua capacidade de mutação desde um pequeno girino a um sapo maduro; podemos associá-lo à metamorfose, à transformação. Já o lobo sobe no alto da montanha e lá do alto uiva, tem um passo leve, rápido, é certeiro em sua caça, podemos diante de tais atributos associá-lo a inteligência e a esperteza, por exemplo. Contudo, temos que ter o cuidado para não engessar as simbologias e torná-las ocas, em um manual de códigos, em um esquema. No campo da interpretação, entramos num âmbito que não é racional, se usarmos a razão concreta, vamos achar muitos contos absurdos e cruéis, isso seria uma interpretação superficial, uma visão redutiva. Mesmo porque cada um construirá para si, o seu sapo, o seu lobo, seu príncipe e sua princesa.

Outro exemplo ocorre quando um conto traz a imagem de um rei, uma rainha. Não está se referindo a fatos históricos, ao tempo do Imperialismo e Dinastias, mas a uma realeza que não é terrena e sim espiritual. Ao abordar arquétipos, como verdade, bondade e coragem, a essência dos contos preserva valores universais. Então, quando os contos de fadas falam de reis e rainhas, referem-se a instâncias que estão dentro de nós. Independentemente se somos homens ou mulheres, temos dentro de nós, príncipes, princesas, reis, rainhas, dragões, bruxas e magos. Mas além dos reis e rainhas, há contos que falam do pastor, do alfaiate ou da menina paupérrima. Os contos representam elementos internos.
Quando um príncipe se torna rei, ele eleva o “cor”, o coração, à cabeça, e se torna sábio! Ele é justo e bondoso! Essa é uma forma de vermos esse rei. Quando vemos a união da princesa com o príncipe, podemos relacionar com a junção da alma com o “eu espiritual”.
Sendo assim, ao se referirem a instâncias internas e não externas, os contos de fadas são sempre contemporâneos. A dica é: comece a contar! Escolha um conto que você goste, comece a criar um vínculo com ele, conte primeiro para você antes de dormir, leia por vários dias, depois refaça as cenas interiormente daquela história. Todo conto tem um caminho a seguir, percorra esse caminho! Conte a partir do coração e não da cabeça. Quanto à entonação, não devemos dar ênfase a uma determinada parte da história ou personagem, pois todos são importantes. Procure transmitir calma, calor e musicalidade na voz. Conte o mesmo conto várias vezes.
É tão bonito quando alguém tem a lembrança da avó que sempre contava a mesma história. Não há problema nenhum em ser sempre a mesma. Lembrem-se que o mais importante é a qualidade do encontro, é saber pôr a mesa, enfeitá-la com flores para servir esse alimento tão especial que são as histórias!
Cleonice Vieira dos Santos
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